8. ARTES E ESPETCULOS 18.7.12

1. CINEMA - QUAL O PENTE QUE TE PENTEIA?
2. LIVROS  A MAIOR IDEIA DA HISTRIA
3. DVD   UMA GLRIA
4. VEJA RECOMENDA
5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
6. J. R. GUZZO  F AO AVESSO

1. CINEMA - QUAL O PENTE QUE TE PENTEIA?
A cabeleira rebelde e cor de fogo da escocesinha Merida, de Valente,  a mais perfeita traduo visual de uma personagem j alcanada por um desenho animado.
ISABELA BOSCOV

     Doze filmes, a uma mdia de 600 milhes de dlares em bilheteria por filme, e nenhum deles com uma personagem feminina como protagonista: se a Disney  o reino das princesas, a Pixar  o quintal dos meninos  brinquedos que percorrem o mundo em aventuras, ratos que querem ser chefs, carros irrequietos, super-heris irritados por ter de fingir que no so sper. Um bando de crianas rebeldes, em suma, cheias daquela energia impaciente com que os meninos deixam atrs de si um rastro de adultos exaustos. Desde o incio dos anos 2000, no entanto, os animadores da Pixar (que, a comear por seu chefe e mentor, John Lasseter, correspondem integralmente  descrio acima) tm cincia de que a cultura de sua empresa  a de um clube de garotos. E que, pelo simples fato de esse constituir um ponto cego em seu processo criativo, seria necessrio super-lo. Na Pixar, porm, trabalha-se freneticamente para colher resultados a longussimo prazo. Em 2003, Lasseter contratou Brenda Chapman, que havia sido supervisora de roteiro em O Rei Leo. Em maio de 2004, Brenda apresentou seu argumento para um filme sobre uma princesa anti-convencional e recebeu o sinal verde para proceder imediatamente  produo  e, assim, tornar-se a primeira mulher a dirigir um filme na Pixar. Mas s agora Valente (Brave, Estados Unidos, 2012) chega aos cinemas.
     Merida, a princesa imaginada por Brenda,  uma escocesinha com uma enorme cabeleira ruiva de cachos indomveis. Resultado da inspirao e do virtuosismo tcnico caractersticos da Pixar, essa juba com vida prpria ao mesmo tempo define Merida (no adianta tentar prend-la, porque ela vai se soltar), ilumina as cenas como uma chama e, mais, torna Merida alegre, impetuosa, vibrante e volvel. Toda a fora da personagem est nela  e, quando a me de Merida, a rainha Elinor, esconde essa maravilha sob uma touca comportada para apresent-la aos trs pretendentes que vo disputar sua mo em casamento, a princesa teima em libertar um cachinho e deix-lo  vista sobre a testa: sem essa expresso de sua independncia, sente Merida, ela no  ningum. Ou, pelo menos, no  Merida, a menina que, sob o olhar censurador da me mas para orgulho do pai, cavalga pelos bosques e urzes, ri alto demais e tem mira irrepreensvel com o arco e flecha. As tentativas de ensin-la a bordar, cantar ou entreter polidamente visitas formais redundam sempre em fracasso  e mais ainda a tentativa de impor a ela a tradio e faz-la topar o noivado com o primognito de um dos trs cls sob guarda de seu pai. Que noivo que nada, resiste a princesa: ela no est pronta para casar, e talvez nunca venha a estar.
     Uma princesa sem prncipe eis algo que faria tremer a Disney. E, segundo se pode peneirar dos rumores, encheu de hesitao tambm Brenda Chapman. Pelo menos na sua primeira verso do enredo, Merida queria o direito de escolher em vez de ser escolhida  e no o direito de simplesmente dizer no e no. Aps as habituais alegaes de diferenas criativas, Brenda foi removida da funo e substituda por Mark Andrews, um talento em preparao que fora com ela  Esccia em uma viagem de pesquisa por ter certa afinidade com o assunto: toda sexta-feira, Andrews, vestindo um kilt, a tradicional saia escocesa, fica no gramado em frente  entrada principal da Pixar desafiando quem passa por ali para duelos de espadas (de verdade). Em uma reportagem recente, a revista Time apurou que Andrews adora dar apelidos irritantes aos colegas de trabalho, nunca come a verdura do prato e terminou Valente devendo mais de 1000 dlares em multas por palavres. A princesa Merida foi concebida por uma mulher  mas ganhou sua forma final e veio ao mundo pela imaginao de um menino.
     Ou isso  o que parece. Na verdade, Andrews teve papel decisivo como supervisor de roteiro de Os Incrveis, uma histria de crise conjugal disfarada em filme de super-heris (leia o texto na pg. ao lado). E escreveu e dirigiu um dos mais estupendos curtas da Pixar. One Man Band, sobre uma pequena camponesa ardilosa por cuja moedinha dois homens-banda competem. A camponesinha cheia de opinio  uma espcie de precursora de Merida; e o trajeto seguido por Valente, assim, no resulta de uma imaginria diviso entre meninos e meninas, mas da cultura de crivos brutais e responsabilidade absoluta que  a fundao da Pixar e que responde tanto pelo seu xito criativo quanto por seu sucesso comercial. Na Pixar, os funcionrios podem andar de patinete e decorar suas salas como forte apache ou castelo, mas a brincadeira em servio termina a. Todo projeto em andamento  regularmente avaliado  e trucidado  por um conselho independente.
     Nenhum diretor  obrigado a acatar as crticas e sugestes do conselho. Mas pode ser deposto a qualquer momento se concluir-se que o trabalho no est satisfatrio e sua rota no poder ser corrigida sob aquela liderana. Alm de Brenda, os diretores iniciais de Toy Story 2, Ratatouille e Carros 2 j haviam sido tirados da corrida antes de cruzar a linha de chegada. Doloroso para o ego e custoso para a empresa, j que quando se demite um diretor  porque ser preciso refazer trechos inteiros do desenho, com imenso dispndio de tempo e dinheiro. Mas tranquilizador para a instituio de excelncia criativa em que a Pixar se tornou. Merida, a exemplo da camponesinha de One Man Band, fez Brenda e Andrews trabalhar duro pelo direito  sua recompensa.
     Mas, generosamente, deixou que os dois a recebessem  no uma moeda, mas ela mesma, uma herona e pioneira.

E OS MENINOS FORAM ENGANADOS
     Se a cabeleira de Merida no viesse a incendiar Valente, os meninos de todas as idades que vinham assistindo aos filmes da Pixar talvez nunca houvessem tomado conscincia da ausncia de uma protagonista feminina entre as animaes do estdio. To felizes estvamos todos com o caubi e o astronauta de Toy Story (Barbie s ganharia destaque no terceiro filme da srie) e com as mquinas falantes de Carros! A inovao, porm,  relativa. Sim, a Pixar tem sua cultura empresarial masculina. Foi criada por um colecionador de brinquedos, John Lasseter, em parceria com um genial criador de gadgets eletrnicos (i.e., brinquedos de adulto), Steve Jobs. Mas Lasseter ganhou slidas credenciais feministas ao supervisionar produes da Disney estreladas por princesas pr-ativas: A Princesa e o Sapo e Enrolados. Se no houve protagonistas mulheres, a galeria feminina da Pixar j era variada e expressiva, da desmiolada peixinha Dory em Procurando Nemo  hightech EVA em Wall-E.
     E as meninas, elas estariam mesmo sentindo falta de uma herona? Bem, gnios do mercado  do mercado cultural, inclusive  so aqueles que do ao pblico aquilo que ele desejava sem saber que o desejava. A est Merida, a revolucionria princesa sem prncipe. A questo agora  outra: os meninos que at aqui acompanhavam a Pixar vo aceit-la? A resposta tende a ser positiva. Merida  aquela menina com quem talvez gostssemos de brincar (no, no de mdico: brincar mesmo, inocentemente), mesmo com o risco de sairmos da brincadeira humilhados pela desenvoltura fsica dessa garota espoleta. Valente  uma verso com sinais trocados de uma animao tipicamente de menino: Como Treinar o Seu Drago, do estdio rival DreamWorks. O heri daquele filme era um garoto magrelo oprimido pelas expectativas de seu pai macho; a herona de Valente  uma garota atltica sufocada pelas imposies de sua me dondoca. E os dois desenhos tm um elenco de extras muito parecidos: guerreiros violentos mas pueris (escoceses em Valente, vikings em Como Treinar o Seu Drago, e nos dois casos a matriz estar nos irredutveis gauleses de Asterix) que adoram se espancar afetivamente. Bem pesadas as coisas, Valente, mesmo centrado nas sutilezas do relacionamento entre uma me e uma filha, ser talvez o filme em que a Pixar quase abandonou uma certa delicadeza feminil. John Lasseter e sua turma, afinal, vinham enganando os meninos havia muito tempo: no fundo, sempre fizeram animaes de mulherzinha. At em Os Incrveis, um filme de super-heri, o que estava em causa na verdade era um casal discutindo a relao.
JERNIMO TEIXEIRA


2. LIVROS  A MAIOR IDEIA DA HISTRIA
Niall Ferguson, acadmico de Harvard, identifica as caractersticas que, em cerca de 400 anos, levaram a civilizao ocidental a dominar  e melhorar  o mundo.

JERNIMO TEIXEIRA
     Consta que certa vez Mahatma Gandhi, ao ser questionado sobre o que achava da civilizao ocidental, respondeu: Seria uma boa ideia. A anedota pode bem ser apcrifa, mas, nos registros autorizados do pensamento do lder nacionalista indiano, h exemplos mais evidentes (e bem menos espirituosos) de desprezo pela civilizao ocidental: ela seria um veneno, uma doena, e estaria destinada  autodestruio. Esse ressentimento do colonizado foi entusiasticamente encampado por alguns dos mais proeminentes clubes acadmicos e crculos intelectuais do colonizador. Quem ousa sugerir que Shakespeare, Coca-Cola ou penicilina so, afinal, coisas bem legais corre hoje o risco de ser acusado de eurocentrismo. Professor da Universidade Harvard, o historiador Niall Ferguson no tem pacincia com o relativismo multiculturalista. Em civilizao (traduo de Janana Marcoantonio; Planeta: 432 pginas; 54,90 reais), que acaba de chegar s livrarias brasileiras, ele faz at a sbria defesa de alguns mritos humanistas do imperialismo europeu na frica (que, alis, j fora tema de uma obra anterior, Imprio). A assero da superioridade ocidental, embora talvez insufle indignaes militantes, no  o aspecto mais instigante do livro. A grande ambio de Ferguson  explicar como e por que o Ocidente alcanou tamanha predominncia sobre o mundo  uma questo que ganha particular premncia em um tempo no qual essa liderana vem sendo ameaada por potncias como a China.
     A delimitao exata da civilizao ocidental , Ferguson admite, incerta e problemtica. Varia de acordo com as inclinaes ideolgicas de cada estudioso. Grosso modo,  ocidental toda forma de civilizao que tenha uma matriz europeia (embora a incluso da Amrica Latina permanea sub judice). A fora imperial do Ocidente concentrou-se na Europa e na mais bem-sucedida de suas ex-colnias, os Estados Unidos. Juntos, eles deram uma arrancada histrica impressionante na segunda metade do milnio passado. Em 1500, a civilizao ocidental respondia por apenas 20% do PIB global; 400 anos depois, essa fatia havia crescido para mais de 70%. No auge do seu poder imperialista, no incio do sculo XX, o Ocidente  dez pases europeus mais os Estados Unidos  concentrava 58% da superfcie terrestre e 57% da populao mundial (veja outros dados comparativos no quadro na pg. ao lado).
     Na poeira ficaram potncias gigantescas como a velha China e o imprio Otomano. Este tentou seu ltimo grande lance em 1683, no cerco a Viena, captulo decisivo na histria dos enfrentamentos entre cristos e muulmanos. Numericamente mais poderosas do que os efetivos de Leopoldo I, imperador da dinastia dos Habsburgo, as tropas do sulto Mehmed IV chegaram a derrubar as paliadas externas da cidade. Mas Leopoldo escapou de Viena e foi buscar o apoio da Polnia, pas com o qual tinha um tratado de defesa mtua. As tropas polonesas infligiram uma derrota acachapante aos otomanos. O fracasso de Viena ps um limite  expanso muulmana na Europa. No fim daquele sculo, o imprio dos sultes foi obrigado a deixar seus domnios na Hungria e na Transilvnia. Por que as naes crists, to dbeis no passado em comparao s muulmanas, hoje comeam a dominar tantas terras e at mesmo a derrotar exrcitos otomanos, outrora vitoriosos?, perguntava-se, no sculo XVIII, o militar otomano Ibrahim Mteferrika.
     A resposta de Civilizao est num conjunto de seis fatores fundamentais, que teriam conferido ao Ocidente vantagens com que nenhuma civilizao anterior jamais contou: competio, cincia, propriedade, medicina, consumo e tica do trabalho. Em uma analogia no muito feliz com o mundo dos tablets e smartphones, Ferguson chama esses elementos de aplicativos incrveis (no ingls original, killer apps) do Ocidente. O livro dedica um captulo ao exame de cada um desses itens.
     Quase todos os captulos trazem comparaes entre o Ocidente e alguma outra civilizao que ficou para trs na histria. No captulo sobre propriedade, porm, Ferguson compara dois modelos ocidentais de colonizao nas Amricas: as colnias britnicas na Amrica do Norte e as espanholas na Amrica do Sul. Nas primeiras, at os colonos que vinham da Europa em condio servil tinham direito, depois de alguns anos de trabalho, a uns tantos acres de terra. No Peru conquistado por Francisco Pizarro, porm, todo o territrio pertencia  coroa espanhola, e os colonizadores eram aventureiros que viviam da expoliao do trabalho indgena empregado na extrao de prata. Este  um cenrio que se abre para especulaes de histria alternativa: se a poro que lhe coube do Novo Mundo fosse rica em ouro e prata, ser que a Inglaterra teria se dedicado  acumulao mercantilista e impedido a constituio de uma classe de pequenos proprietrios nas Treze Colnias americanas? Talvez, mas Ferguson tende a dar mais peso s diferenas institucionais entre as duas metrpoles europeias: a Inglaterra, j uma monarquia parlamentar, teria exportado um modelo mais democrtico do que a Espanha, com sua coroa centralizadora. Os percalos polticos da Amrica Latina, com sua folclrica sucesso de caudilhos golpistas, teriam comeado nessa falha institucional de base. Embutido na noo de propriedade, alis, estaria todo o conjunto de instituies que formam um legtimo estado de direito  e, por extenso, o regime democrtico. George Washington, heri da Independncia americana, foi tambm grande proprietrio de terras, e a democracia que ele e pares como Thomas Jefferson fundaram baseava-se no slido fundamento da propriedade privada e dos direitos individuais correlatos.
     A competio entre naes europeias nos primrdios da era das grandes navegaes teria determinado o sucesso delas na explorao do Novo Mundo  enquanto a China, imprio continental sem competidores, perdia o trem (alis, o barco) da histria, a despeito de ter construdo sua frota martima antes de Portugal. A revoluo cientfica dos sculos XVI e XVII, protagonizada por cientistas como William Harvey e Isaac Newton, que colaboravam mas tambm competiam (nem sempre de forma leal) uns com os outros, no teve paralelo entre os otomanos. Em uma iniciativa isolada, um astrnomo chegou a montar um observatrio com telescpio em Istambul, mas este acabou destrudo por ordem de autoridades religiosas que consideravam essas atividades incompatveis com o Isl. Avanos cientficos proporcionam vantagens tecnolgicas  e no estranha que, nos sculos seguintes, as tropas europeias contassem com armas mais eficientes do que as otomanas.
     Ferguson  por formao um historiador econmico, cuja fama se consolidou com A Ascenso do Dinheiro (livro que, tal como Civilizao, deu origem a um documentrio da BBC). Em Civilizao h estatsticas, grficos e dados numricos, mas a nfase recai mais sobre a cultura. Ferguson no se deixa compartimentalizar no nicho do especialista. Trata-se, ao contrrio, de um autor de grandes panoramas, que por vezes se perde em digresses (no d para entender direito o que sua anlise crtica da Revoluo Francesa faz no captulo dedicado  medicina). Ele  tambm um historiador atento ao presente: o ponto de fuga do amplo quadro de Civilizao  o presente de relativo declnio da liderana ocidental  declnio que, lembra Ferguson no eplogo, foi acentuado pela crise econmica global. Os competidores, no entanto, utilizam armas ocidentais. Na analogia do autor, fizeram um download de seus aplicativos: o Ir busca a cincia para seu programa nuclear  mas tem a liberdade de conscincia. A China est na ponta do capitalismo e do consumo  mas no tem competio poltica nem um estado de direito que merea realmente ser assim chamado. A civilizao ocidental, diz Ferguson, no  uma coisa nem outra:  o pacote todo. Suas extraordinrias realizaes  democracia, inovao cientfica, economia de mercado  s se realizam plenamente em conjunto. E sim, Gandhi: a civilizao ocidental  uma grande ideia. 

A ASCENSO DO OCIDENTE
Na metade do segundo milnio, eram as potncias orientais, como a China e o Imprio Otomano, que dominavam o mundo. Em 400 anos, deu-se a grande virada da civilizao ocidental

INCIO DO SCULO XVI
O Ocidente, restrito  Europa, ocupava 5% da superfcie terrestre, abrigando 16% da populao e respondendo por 20% do PIB do mundo.
A maior cidade do mundo era Pequim, com populao estimada entre 600.ooo e 700.000 habitantes.
Paris, com menos de 200.000 seria a nica cidade europeia entre as dez mais populosas do mundo.

INCIO DO SCULO XX
Os imprios ocidentais, com suas colnias, estendiam-se por 58% da superfcie terrestre, abrigando 57% da populao e respondendo por 74% do PIB do mundo.
A maior cidade do mundo era Londres, com uma populao de 6,5 milhes. A nica cidade asitica entre as dez maiores era Tquio.


3. DVD   UMA GLRIA
O Homem que Queria Ser Rei, de John Huston, uma das ltimas grandes aventuras feitas e vividas pelo cinema.

     Membros da maonaria e soldados do Exrcito imperial britnico na ndia, Peachy Carnehan e Daniel Dravot so tambm trapaceiros. Mas no vagabundos: investem quantidades colossais de energia em seus esquemas. A p ou em lombo de mula, Peachy e Daniel atravessam centenas de quilmetros, cortando os desertos do Afeganisto e os picos gelados da Cordilheira do Hindu Kush, para chegar at o Kafiristo, uma nao to remota que desde os tempos de Alexandre, o Grande, no sculo IV a.C., no se tem notcia de que tenha sido novamente visitada. As informaes vagas recolhidas pela dupla do conta de que ali tribos ferozes vivem em guerra umas contra as outras. De guerra, aquela travada no corpo a corpo, Peachy e Daniel entendem  e ento, pensam eles, se aparecerem no meio daquela gente primitiva com algumas dezenas de rifles, viraro mais do que senhores. Daniel, imponente, far o papel de rei, e Peachy, melfluo e cheio de lbia, interpretar seu conselheiro. O surpreendente  que o plano funciona. Os nativos recebem os forasteiros com sua belicosidade habitual; mas o medalho da maonaria salva a vida de Daniel. Milagre  e Daniel se torna mais do que rei aos olhos dos kafiris:  quase um deus. E comea no s a gostar desse novo personagem, como a acreditar nele. O Homem que Queria Ser Rei (The Man Who Would Be King, Estados Unidos/Inglaterra, 1975: New Line)  um dos ltimos e mais brilhantes lances de aventura sem fronteiras do cinema  um desses filmes em que o fazer  uma faanha quase to grande quanto a protagonizada pelos personagens, e cuja intoxicao transpira inteira para a tela. Por isso, ainda que a cpia em que est sendo lanado aqui em DVD seja malcuidada,  preciso encar-lo como item indispensvel: at agora, o filme no estivera disponvel no pas nem sequer no finado VHS.
     No s a euforia das filmagens ficou impressa em O Homem que Queria Ser Rei. A personalidade leonina do diretor John Huston, dos clssicos Uma Aventura na frica e O Tesouro de Sierra Madre, est representada aqui na ntegra: vigorosa, masculina, cheia de humor e de destemor. Quando conseguiu tirar do papel esta adaptao da novela de Rudyard Kipling (interpretado por Christopher Plummer), em 1975, Huston havia quase duas dcadas tentava realiz-la  primeiro com Humphrey Bogart, que morreu, e depois com Clark Gable, que seguiu o mesmo caminho. Terminou com Michael Caine no papel de Peachy e Sean Connery no de Daniel, e no poderia ter escolhido melhor. Caine, um emrito contador de casos, j passou entrevistas inteiras rememorando as peripcias que ele e Connery aprontaram. E essa fasca entre os dois, de camaradagem profunda e oposio de personalidades (Connery brinca com sua aura de invencibilidade, enquanto Caine explora seu cinismo proletrio),  outra das alegrias de O Homem que Queria Ser Rei. De fato, h um certo tipo de filme que j no se faz mais como antes. E este aqui no  s grande:  uma glria.
ISABELA BOSCOV


4. VEJA RECOMENDA

DVDs
PROJETO X  UMA FESTA FORA DE CONTROLE (PROJECT X, ESTADOS UNIDOS, 2011. WARNER)
 Lanado nos cinemas americanos apenas um ms depois de Poder sem Limites, este Projeto X  tambm ele um renovador do at h pouco dado como saturado gnero da cmera-dirio, aquele em que os prprios personagens filmam sua histria. Mas, ao contrrio de Poder, que seguia rumo ao drama, este filme delicioso (e, avise-se, cheio de cenas e dilogos muito chulos e comportamentos imprprios) vai pelo caminho do deboche, e da para a insanidade. Trs amigos decidem aproveitar a viagem de fim de semana dos pais de um deles para dar uma megafesta na casa vazia. Como no so bem o tipo de adolescente popular, imaginam que conseguiro convidar algo como uma dzia de pessoas. Aparecem mais de 1500. E, como o subttulo nacional esclarece, a situao foge completamente ao controle dos anfitries  qu, no podendo vencer a turba, se do por vencidos e juntam-se a ela. A certa altura, a polcia desiste de chegar perto do quarteiro, j que  impossvel garantir que conseguiria sair dele. No final, casas (no plural) estaro arrasadas e os trs amigos se vero at ameaados de cadeia. Mas, como o espectador, estaro felizes da vida.

UM TIRA ACIMA DA LEI (RAMPART, ESTADOS UNIDOS, 2011. CALIFRNIA)
 Ainda que o ttulo nacional sugira uma comdia dos anos 80,  completamente outra a matria-prima desta segunda colaborao entre Woody Harrelson e o diretor israelense Oren Moverman, iniciada em 2009 com O Mensageiro: mais uma vez explorando com brilhantismo as facetas sombrias de seu talento dramtico, Harrelson  Dave Brown, um policial que, na Los Angeles de 1999,  flagrado por uma cmera enquanto espanca um suspeito negro. Eficiente mas tambm violento e corrupto, Dave tem uma ficha repleta de citaes por fora excessiva  e, embora esse seja o mtodo de toda a polcia da cidade, o incidente implica sua renegao pblica. No que Dave pretenda acatar a deciso:
interpretado por Harrelson com uma tenso que nunca afrouxa, ele  ao mesmo tempo uma criatura nica e um ponto de abordagem para um tema que no se esgota  a partir de um roteiro do mestre angeleno do crime, o romancista James Ellroy, o filme investiga quo srdido tem de ser um homem para sobreviver em meio  sordidez de seu trabalho. Dave  um desses personagens que esto contemplando o abismo  e, embora no o tenha percebido ainda, o abismo o est mirando de volta, aguardando a sua queda.

LIVRO
GRANDES ESPERANAS, DE CHARLES DICKENS (TRADUO DE PAULO HENRIQUES BRITTO; PENGUIN COMPANHIA; 704 PGINAS; 37 REAIS)
 Eis um clssico que pedia uma traduo digna no pas. Nas aventuras e desventuras de Pip, o rfo pobre criado por um tio compassivo e uma tia megera  e que, por graa de uma herana misteriosa, se converte em um dndi em Londres , concentram-se toda a turbulncia e o drama da sociedade vitoriana. Um dos escritores ingleses mais populares de seu tempo, que lotava auditrios com suas leituras pblicas, Charles Dickens (1812-1870) alcana aqui as notas mais altas de seu talento: um bem calculado e irresistvel sentimentalismo, um certo humor custico na observao social (especialmente no retrato de advogados oportunistas e outras figuras cmicas do mundo jurdico londrino) e uma inesgotvel capacidade de criar personagens. Com um bom aparato de notas, esta edio traz ainda o final original (mais seco e curto) que Dickens criara para o romance e acabou mudando por sugesto de um amigo. O final consagrado, porm,  uma prola de ambiguidade e poder sugestivo.

DISCOS
66, O TERNO (TRATORE)
 H tempos faltava no pop nacional uma banda como O Terno. Tim Bernardes (guitarra, vocais), Guilherme Peixe (baixo) e Victor Chaves (bateria) fazem uma msica despojada e de fcil assimilao. Mas que no se confundam essas qualificaes com o elogio  precariedade instrumental que tantas vezes se esconde sob expresses como rock bsico. So todos timos msicos, como se pode perceber na sessentista Eu No Preciso de Ningum e na releitura do trio para Purqu Mec, do duo Os Mulheres Negras  nesta verso com uma guitarra inspirada no pop africano do Vampire Weekend. Os integrantes de O Terno fazem letras bem-humoradas, sem jamais descambar para a piadinha manjada. D para rir bastante em Z, Assassino Compulsivo, cano sobre um serial killer apaixonado. Como um disco de vinil, 66  dividido em duas partes. Na primeira, o trio apresenta composies prprias. O lado B traz cinco canes de Maurcio Pereira, ex-integrante dOs Mulheres Negras e pai do guitarrista Bernardes  entre estas, est a bela  Por Isso que as Pessoas Mudam de Bairro, um divertido passeio pelas regies paulistanas de Pinheiros e Vila Madalena.

ESPELHO DGUA  WATER MIRROR, CAMERATA ABERTA (SELO SESC)
 Criada em maro de 2010, a Camerata Aberta congrega o que h de melhor no cenrio erudito paulistano. Inclui integrantes da Osesp, da Sinfnica Municipal e da Sinfnica da USP. Eles no se intimidam com a suposta dificuldade dos compositores eruditos do sculo XX  ou at do XXI. Pelo contrrio, o grupo de cmara batalha para abrir espao, em So Paulo e no Brasil, para o que h de novo na criao musical (e por novo entenda-se algo muito diverso das populistas adaptaes orquestrais de msica popular brasileira ou das peas para orquestra e sanfona). Espelho Dgua traz obras de sete compositores. O veterano da seleo  o italiano Franco Donatoni (1927-2000). Os demais  um alemo, um portugus e quatro brasileiros  tm idades que variam de 36 a 53 anos. Para quem no se iniciou na msica moderna de um Schoenberg, de um Webern ou de um Boulez, a audio de peas contemporneas pode causar uma impresso inicial de aridez ou esquisitice. Mas msicas como Window Into the Pound, de Slvio Ferraz, com seus elementos atonais, so de uma beleza irretocvel.


5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
2. A Guerra dos Tronos  George R. R. Martin. LEYA BRASIL
3. Um Homem de Sorte  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
4. O Filho de Netuno  Rick Riordan. INTRNSECA
5. Jogos Vorazes  Suzanne Collins. ROCCO
6. o Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
7. A Tormenta de Espadas  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
8. Em Chamas  Suzanne Collins. ROCCO 
9. O Melhor de Mim  Nicholas Sparks. ARQUEIRO 
10. A Fria dos Reis  George R.R. Martin. LEYA BRASIL

NO FICO
1. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO
2. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
3. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL
4. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO
5. 1808  Laurentino Gomes. PLANETA
6. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
7. Getlio 1882-1930  Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS 
8. Mentes Ansiosas  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR 
9. Pulmo de Ao  Eliana Zagui. BELALETRA
10. Steve Jobs  Walter Isaacson. COMPANHIA DAS LETRAS

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO
2. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
3. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
4. A Parisiense  Ines de la Fressange. INTRSECA
5. O Poder dos Quietos  Susan Cain. AGIR 
6.  Tudo To Simples  Danuza Leo. AGIR 
7. A fascinante Construo do Eu  Augusto Cury. ACADEMIA DE INTELIGNCIA.
8. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
9. O X da Questo  Eike Batista. PRIMEIRA PESSOA 
10. Orfandades  O Destino das Ausncias  Pe. Fbio de Melo. PLANETA


6. J. R. GUZZO  F AO AVESSO
     Existem no Brasil algumas verdades que esto acima de qualquer discusso. No h nenhuma dvida, por exemplo, de que certas coisas s acontecem com o Botafogo. Tambm  perfeitamente sabido, at nos berrios, que o Brasil s vai resolver de fato os seus problemas quando a polcia achar os ossos de Dana de Teff, como vem demonstrando h anos o cronista Carlos Heitor Cony  sem ser ouvido, infelizmente, por nossas autoridades. Ningum discute que ou o Brasil acaba com a sava, ou a sava acaba com o Brasil. Essa lista  enriquecida, de tempos em tempos, por novas evidncias  mais adequadas a uma potncia emergente, que se orgulha de ser um Bric, ter um PAC e dispor de um crach de entrada no G20. A ltima delas comeou a aparecer quase dez anos atrs, com o primeiro governo do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, e garante que estamos desfrutando os benefcios da mais brilhante poltica externa que este pas j teve desde o baro do Rio Branco. Trata-se, aqui, de uma f ao avesso. A poltica externa brasileira vai de fracasso em fracasso, como no samba de Antnio Maria. Mas a cada derrota sempre aparece algum comentrio elogiando a sabedoria dos nossos chanceleres, o profissionalismo do Itamaraty ( gente do ramo) e coisas assim  e o problema, a,  que o governo acredita nos elogios. Nossa diplomacia, em consequncia disso, tornou-se uma notvel sucesso de atos que vo contra os interesses brasileiros para satisfazer a teorias. Por causa delas, o Brasil  hoje, possivelmente, a nao do mundo que mais apanha dos pases que escolheu como seus melhores amigos.
     A mais recente vitria da poltica externa brasileira  sua resposta ao impeachment do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, um dos heris latino- americanos do ex-presidente Lula. Esse Lugo, desde que foi eleito, em 2008, s bateu no Brasil. Extorquiu, em desrespeito aos contratos vigentes, um aumento nos dividendos que o Paraguai recebe pela sua sociedade na usina hidreltrica de Itaipu; Lula aceitou na hora, por achar justo, e passou a conta para o contribuinte brasileiro. Manteve o Paraguai como o grande polo da recepo de carros brasileiros roubados e do contrabando macio que custa bilhes de reais, todo ano,  Receita Federal do Brasil. Ultimamente vinha hostilizando os brasileiros que compraram terras em reas do territrio paraguaio onde jamais se havia plantado um nico p de mandioca  e acabaram transformando o Paraguai, com o seu suor e sem ajuda de ningum, no quarto maior exportador de soja do mundo.
O impeachment de Lugo, por todas essas razes, deveria ser um alvio, at porque foi feito dentro das normas estabelecidas na Constituio do Paraguai. Mas o Itamaraty no gostou; como o homem foi posto na rua num processo que durou apenas trinta horas, decidiu que havia ocorrido um golpe, embora no tivesse informado o nmero mnimo de horas  100? 200? 300? que considera aceitvel para um pas estrangeiro depor o seu presidente. No conseguiu nada,  claro;  o que acontece quando um pas quer interferir em questes internas de outro sem ter nenhum meio concreto para fazer isso. Mas junto com a Argentina, que toma medidas comerciais cada vez mais agressivas contra os produtos brasileiros, vingou-se excluindo o Paraguai das reunies do Mercosul. E da? Nenhum paraguaio vai perder um minuto de siesta por causa disso. Para completar o castigo, enfiou-se a Venezuela no Mercosul. A ltima contribuio venezuelana ao Brasil foi sua sociedade meio a meio com a Petrobras, fechada por Lula em 2005, para a construo de uma refinaria de petrleo em Pernambuco. Foi um conto do vigrio, que deixou os brasileiros no seu costumeiro papel de otrios  so eles, como sempre, que vo pagar o prejuzo. At hoje, sete anos depois, a Venezuela ainda no colocou um nico real no projeto.
     O Brasil no est incluindo mais um pas no Mercosul; est incluindo o coronel Hugo Chvez. Seu governo, em matria de economia, consegue ser ainda mais irresponsvel que o da Argentina, em cujos nmeros oficiais nem o ministro Guido Mantega acredita. Amarra-se, assim, s duas economias mais doentes da Amrica do Sul. Conta, enfim, com a Bolvia do presidente cocalero Evo Morales, outro irmo poltico de Lula. Ele j expropriou ativos da Petrobras na Bolvia, legalizou a circulao de veculos roubados no Brasil e tem seu governo infiltrado de alto a baixo por traficantes de cocana, que despejam aqui, cada vez mais, a sua produo. 
      um sucesso acima de qualquer discusso.

